"Internet tornou-se um meio subversivo"

29 de maio de 2010

A frase acima serviu de título para uma entrevista do dinamarquês Mogens Schmidt, vice-diretor da Unesco, ao jornal carioca O Globo. Publicada em 29/05/2010, ela (a frase ou a entrevista, tanto faz) motivou este post, mais uma vez dedicado à tão preciosa 'liberdade de imprensa'.

Segundo o entrevistado, esse "novo meio, a internet, tornou-se em certo sentido um meio muito subversivo, porque é muito difícil de controlar". Entretanto, é sabido que a ditadura chinesa concorda apenas parcialmente com essa opinião: subversiva, sim; difícil de controlar, não.

Mas é a esse pretexto que a Unesco defende uma "alfabetização midiática para estimular pensamento crítico sobre jornalismo". Com tal iniciativa, segundo ele, pretende-se ensinar as pessoas a desenvolverem meios de comunicação, criando jornais e websites para, em seguida, discutirem essa iniciativa.

Mas… what? Isso tudo é realmente necessário? Em se tratando de internet, parece que sim. E como isso seria feito? Schmidt explica que a iniciativa extrapola a internet, abrangendo inclusive os profissionais do ramo, de modo a estabelecer padrões éticos para o 'bom jornalismo'. Segundo ele, a mídia jornalística atualmente só se preocupa com entretenimento; o jornalismo crítico desapareceu; e o jornalismo investigativo já não está fazendo mais o que devia.

E à pergunta sobre "como lidar justamente com a questão da credibilidade, numa época em que qualquer pessoa tem acesso à internet e, através dela, pode propagar informações falsas ou tendenciosas" ele responde:

"Ah, esse é o problema. E é isso que reforça a iniciativa da Unesco. Ao 'alfabetizar' pessoas em relação à mídia, damos a elas a capacidade de distinguir entre o que é uma história tendenciosa, parcial, e uma confiável. Elas aprendem a decodificar a mídia. Por outro lado, ao trabalharmos também com os próprios jornalistas, o foco mais forte está na ética, de forma a que eles façam o seu trabalho de uma forma decente."

Aqui entre nós, essa abordagem está mais para romântica do que realista. E surpreende que tal iniciativa da Unesco [United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization] só se dê agora. E por causa da internet.

Qualquer vigarista de quinta categoria tem pleno conhecimento do poder da informação. Num patamar mais acima (digamos), informação e comunicação configuram business puro, um verdadeiro balcão onde se pode negociar o que e de que forma divulgar… ou não divulgar. Eis a questão.

Esse poder de 'formação de opinião' pode ser até questionável diante dos índices de popularidade do presidente Lula, mas existe sim. E dependendo do que se trate, pode ser mensurado a peso de ouro. Acreditar que uma autorregulamentação nos moldes do CONAR [Conselho de Autorregulamentação Publicitária] possa existir no meio jornalístico é algo no mínimo muito fofo.

A pior podridão humana não está entre os bandidos que circulam pelas ruas, mas dentro dos luxuosos gabinetes dos poderes mantidos a custa dos muitos tributos que flagelam nosso país. É lá que a informação veiculada pelos grandes jornais sabe ser generosa e prestativa. Se a Unesco pretende, de fato, civilizar a atividade do jornalismo profissional, vai ter trabalho.

Mas afinal, por que a internet incomoda tanto as grandes empresas jornalísticas? Simplesmente porque elas não tem como manipular as informações que livremente por lá circulam. Faz sentido: essa liberdade de expressão tem capacidade de atrapalhar os negócios que por conveniência deveriam ser mantidos por trás dos panos.

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