
Defendida com unhas e dentes pelas grandes empresas jornalísticas, a tão idolatrada "liberdade de imprensa" merecia mais respeito. Ela é como uma moeda de duas faces – uma dizendo que 'informar é um direito' e outra, mais complicada, lembrando que 'bem informar é um dever'. Torna-se fácil constatar ruído na comunicação quando a imprensa atribui a si própria o direito de vigiar os deveres dos outros; mais fácil ainda, quando ela o faz vigiando mais os deveres de uns do que os de outros, o que configura um tipo oculto de prestação de serviço em favor de alguém e, por conseguinte, em detrimento de outrém.
A imprensa julga-se suficientemente proba para se autorregulamentar e se diz ameaçada sempre que o governo propõe criar diretrizes legais que previnam e reprimam práticas ilícitas no jornalismo. Essa pretensa autorregulamentação inexiste, mas proliferam práticas ilícitas, invasivas e abusivas. Isso é poder, algo que só deveria existir em âmbito público, jamais em privado.
Informação é algo facilmente manipulável e quando isso ocorre, não é outra a intenção senão a de formar opinião. Nos regimes democráticos, a formação de opinião é vigiada de perto quando oriunda dos governos. Se aos governantes é negado esse abuso de poder (coibido inclusive por meio de legislação eleitoral), por que esse instrumento, aliás típico de regimes autoritários, tem de ser tão graciosamente permitido à mídia?
Daí veio-me a idéia de criar a categoria Jornalismo, a qual inauguro agora com a historinha a seguir, devidamente classificada com as tags 'desinformação, liberdade de imprensa, mau jornalismo'.
Ricardo Boechat a serviço do mau jornalismo?
Ontem à noite (23 de abril de 2010) vi no Jornal da Band, na TV, uma reportagem sobre o Morro do Bumba
, em Niterói – local onde ocorreu a tragédia causada pela chuva mais intensa de que se tem notícia. Mostraram então que moradores estavam retornando às suas casas, embora a área ainda se mantivesse interditada pela Defesa Civil. Finalizando a reportagem, o âncora Ricardo Boechat fez o seguinte comentário:
"O que aconteceu em Niterói a gente diz que é uma tragédia, mas me corrigiram outro dia (…) não, aconteceu em Niterói uma catástrofe. Tragédia são os governantes de Niterói. É o mesmo grupo político há vinte anos (…) e a realidade daquela capital do antigo estado do Rio de Janeiro (…) antigo estado (…) continua essa que vocês viram aí."
Ainda que a responsabilização pela tragédia (ou catástrofe, tanto faz) seja discutível – e que me cause estranheza o insistente foco direcionado pela mídia na direção do atual prefeito de Niterói, Jorge Roberto da Silveira –, chamo a atenção para o fato de que a atual administração (do PDT) foi precedida por dois mandatos seguidos do Sr. Godofredo Pinto (do PT). Portanto, são pelo menos dois os "grupos políticos" que governaram a cidade nos últimos vinte anos.
Ao fazer o comentário, o Sr. Ricardo Boechat extrapolou sua função de informar e noticiar, arvorando-se em 'promotor que acusa' e 'juiz que julga e profere sentença' – atividades que nada tem a ver com a prática do jornalismo. Ainda que sem qualquer respaldo legal, ele e a empresa para a qual trabalha sabem que o querem não é mostrar a verdade, mas a difamação dissimulada na forma de uma inocente-porém-revoltada manifestação de opinião.
À época daquela chuva que durou dias, muita gente morreu soterrada por escombros de encostas. Contaram-se pelo menos 35 mortes no Morro dos Prazeres, em Santa Tereza. Mas isso foi no Rio de Janeiro, cidade sob administração do prefeito Eduardo Paes (PSDB) – ao que parece, imunizado contra ataques da imprensa.
Faz a gente pensar, não?
Leituras recomendadas:
- Padrões de manipulação na grande imprensa
, por Perseu Abramo. - Globo mente para crucificar prefeito de Niterói
, por Conversa Afiada, do jornalista Paulo Henrique Amorim
Tags: desinformação, Jorge Roberto Silveira, liberdade de imprensa, mau jornalismo, Niterói

Thought I would comment and say neat theme, did you make it for yourself? It’s really awesome!