Pequena seleção
de crônicas de
Luis Fernando Verissimo

Depois da Batalha


Quando um casamento dá errado, você pode apostar que o problema começou na cama. Mas ninguém entendeu quando o Jorge e a Gisela voltaram da lua-de-mel separados e, em vez de constituírem um lar, constituíram advogados. Afinal, a não ser por alguma revelação insólita – um descobrir que o outro não era do sexo que dizia ser, ou era tarado, ou era, sei lá, um vampiro, ou do PFL Jovem, nada que acontece ou deixa de acontecer na cama numa viagem de núpcias é tão terrível que não possa ser resolvido com tempo, compreensão ou terapia. O sexo não podia ter sido tão desastroso assim.

– Não, não – disse o Jorge. – O sexo foi ótimo. O problema foi outro.

– Qual?

– Batalha naval.

O sexo tinha sido tão bom que Jorge e Gisela ficaram uma semana sem sair da cama. Mas o amor, como se sabe, é como marcação sob pressão no futebol. Por melhor preparados que estejam os jogadores, eles não podem marcar sob pressão os 90 minutos. Nem se o Jorge e a Gisela fossem o

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Rincon e o Vampeta do sexo conseguiriam se amar o tempo todo, dia e noite, sem intervalos. E foi para preencher os intervalos que o Jorge propôs a Gisela que jogassem batalha naval. Tinham o que era preciso no quarto, papel e lápis. Qualquer borda reta serviria como régua para fazerem os quadradinhos. Não precisavam sair da cama. E o vencedor podia escolher a forma como se amariam, depois da batalha.

– Jota 11.

– Água. Bê 4.

– Outro submarino.

– Viva eu!

Quem passasse pela porta do quarto dos recém-casados e ouvisse aquilo não entenderia o que acontecia lá dentro. Jorge e Gisela, nus sob os lençóis, um atirando seus mísseis imaginários sobre a frota do outro. Gisela, estranhamente, acertando mais do que Jorge. Que já tinha perdido dois submarinos e um cruzador quando finalmente acertou um disparo.

– Agá 9 – cantou Jorge.

– Ih... lamentou-se Gisela – Parte do meu porta-aviões.

– Arrá! – gritou Jorge, triunfante.

– Ele 12 – tentou Gisela.

– Água, água ― disse Jorge, ansioso para terminar o serviço no porta-aviões inimigo.

– Agá 10!

– Água. Dê 13...

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– Água. Agá 8...

– Água. Éfe 2...

– Água. Gê 9.

– Água. Ele 6.

– Água. I nove!

– Água. Ene...

– Espera um pouquinho. Como, água?

– Água. Você acertou na água.

– Você me disse que agá 9 era parte do seu porta-aviões.

– E é.

– Mas eu disparei em volta do agá 9 e não acertei mais nada.

– Exatamente. Só acertou água.

– E onde está o resto do seu porta-aviões?

– E eu vou dizer? Engraçadinho! Tente adivinhar.

Jorge estava de boca aberta. Quando conseguiu falar, foi com a voz de quem acaba de encontrar uma nova forma de vida, e tem medo de provocá-la.

– Deixa ver se eu entendi. O seu porta-aviões não está todo no mesmo lugar...

– Claro que não! Eu divido em quatro partes, e boto uma bem longe da outra. Assim fica mais difícil de atingir.


♦ ♦ ♦


Os amigos concordaram que seria perigoso ficar casado com uma mulher que espalhava o seu porta-aviões. Por melhor que fosse o sexo, era preciso

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pensar no resto da vida, quando os intervalos ficariam cada vez maiores. Jorge nem chegou a contar que os submarinos da Gisela não constavam do diagrama da sua frota. Segundo ela, estavam submergidos, podiam estar em qualquer lugar, nem ela saberia onde encontrá-los. Era melhor pedir divórcio.


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Brasil e Costa Rica


Ficou combinado que o grupo se reuniria na casa do Edson para assistir Brasil e Costa Rica. Sem as mulheres, claro. Elas tinham sido companheiras às seis da manhã contra a Turquia, tinham sido companheiras às 8 e meia da manhã contra a China, mas solidariedade às 3 e meia da manhã era pedir demais. As mulheres ficariam em casa, dormindo, enquanto os homens assistiam Brasil e Costa Rica na casa do Edson. E o Gilson aproveitou. Pela primeira vez em dez anos – na verdade pela primeira vez desde o caso com a Regininha, se é que aquilo podia ser chamado de caso – o Gilson não resistiu. O álibi estava pronto, e era perfeito. A Luiza não desconfiaria. E afinal, dez anos de fidelidade mereciam um prêmio. Mereciam, pelo menos, uma folga. Gilson não foi à casa do Edson ver Brasil e Costa Rica.


♦ ♦ ♦


Quando Gilson entrou no quarto, às 6 da manhã, a Luiza acordou. E disse:

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– Que coisa, hein?

– O quê?

– O jogo.

Gilson gelou. O que teria acontecido no jogo? Ele não sabia de nada. Saíra diretamente do motel para casa. No motel, nem pensara em ligar a televisão. Ou ligara, mas para verem Tara no Internato no circuito interno. O que acontecera? Várias possibilidades catastróficas passaram pela sua cabeça. O Brasil perdeu para a Costa Rica. O Brasil foi goleado pela Costa Rica. Pior, o Brasil foi goleado e alguém se machucou. Alguém foi expulso. Meio time foi expulso. O Felipão mordeu o juiz. O estádio desmoronou. O que acontecera, meu Deus? Decidiu ganhar tempo.

– Você viu o jogo?

– Vi. Perdi o sono e acabei vendo. Que coisa, né?


♦ ♦ ♦


Gilson disse "Mrlm" e entrou no banheiro. "Mrlm" tanto poderia significar "É" como nada. O importante era não se comprometer. E se fosse um truque? E se fosse um teste? Se ele dissesse "É", estaria reconhecendo que algo acontecera, e obrigado a comentar o acontecido. E então ela daria o bote. Não aconteceu nada. Ou se aconteceu, eu não vi. E nem você, seu cretino! Onde você estava na hora do jogo? Onde você estava? Hein? Hein? O melhor

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era se trancar no banheiro, e demorar. Com sorte, quando saísse do banheiro ela estaria dormindo outra vez. Ele precisava de tempo. Precisava pensar. Precisava se organizar.


♦ ♦ ♦


Trancado no banheiro, não conseguia pensar em nada. Só que precisava se organizar. Digamos que tenha acontecido mesmo uma catástrofe. Posso improvisar. Concordar que foi um horror e deixar ela falar, para descobrir o que foi. Fingir que ainda estou abalado pelo acontecido e prefiro não tocar no assunto. Mas é um risco. Se na verdade não aconteceu nada, eu estarei me denunciando. Mas se aconteceu e eu não vi, é pior! Calma. Preciso de calma. Frieza. Raciocínio. O que pode ter acontecido no jogo para merecer a frase "Que coisa, né?" Pode ter sido apenas um mau jogo. Mais difícil do que o esperado, só isso. Não tenho razão para me apavorar. Ou tenho? Ela nunca me perdoou pela Regininha.


♦ ♦ ♦


O celular! Claro! Por que não pensei nisso antes? Estou com o meu celular. Ligo para o Edson e pergunto o que aconteceu no jogo. Não, o Edson não. Não tenho tanta intimidade assim com ele. Não para acordá-lo às 6 da manhã. O Rubinho. O Rubinho é

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amigão. Amigo de se acordar a qualquer hora, numa emergência. É esta é uma emergência. Meu casamento pode estar ameaçado. Minha vida pode estar ameaçada. O Rubinho. Qual é o número do telefone do Rubinho? Sei de cor mas esqueci. É o nervosismo, tenho que me controlar. Me lembrei! Rubinho, amigão. Me salva!

– Alô?

Meu Deus. Acordei a mulher do Rubinho.


♦ ♦ ♦


– Oi, Neidinha. Acordei você?

– Claro que acordou, não é, Gilson?

– Desculpe. É que eu... O Rubinho pode atender?

– O Rubinho não está com você?

Ai, ai, ai.

– Ele não está aí?

– Na cama, não. Pelo menos na nossa cama, não. Ele me disse que vocês iriam tomar café da manhã juntos e ele chegaria mais tarde. – Pronto. O Rubinho também aproveitou Brasil e Costa Rica para fazer programa.

– É. Nós estávamos juntos até há pouco. Pensei que ele já tivesse chegado em casa.

– Algum problema, Gilson?

– Não, não. Nada. Nada. O Rubinho deve chegar aí a qualquer momento.

– Como foi o jogo?

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– Mrlb.

– O quê?

– Nada. Vai dormir, Neidinha.


♦ ♦ ♦


– Algum problema, Gilson?

Agora era a Luiza, batendo na porta do banheiro.

– Não, não. Nada. Nada. Já vou sair.

O Edson. O jeito era telefonar para o Edson. Se já não eram tão amigos, ficariam menos com um telefonema àquela hora. Mas não havia outro jeito. Como era mesmo o número do Edson?

– Alô?

– Alô, Edson? Gilson. Desculpe eu estar...

– Sim senhor hein? Belos amigos vocês são. Eu preparo tudo, compro bebidas, faço sanduíches, e não me aparece ninguém.

– Ninguém?!

– Ninguém. Vi o jogo sozinho.

– Puxa. Mas Edson, falando nisso, o que aconteceu no...

– Ó Gilson, quer saber de uma coisa? Vai a merda.

E Edson desliga o telefone.


♦ ♦ ♦


Bom, pensa Gilson. Pelo menos eu sei que não

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fui só eu. Todos aproveitaram o álibi do jogo. O Rubinho, o Alci, o Careca, o Pena. Cambada de safados. Agora só o que eu tenho que fazer é esperar um pouco e ligar para todos. Para combinarmos uma história em comum. Meu único problema é explicar à Luiza por que eu não saio do banheiro.

– Gilson, qual é o problema?

– Nada, não. Uma dorzinha de barriga. Deve ter sido os sanduíches do Edson.


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Choque Cultural


Todos ficaram preocupados quando o Márcio e a Bete começaram a namorar, porque cedo ou tarde haveria um choque cultural. Márcio era louco por futebol, Bete só sabia que futebol se jogava com os pés, ou aquilo era basquete? Avisaram a Bete que para acompanhar o Márcio era preciso acompanhar a sua paixão, e ela disse que não esquentassem, iria todos os dias com o Márcio ao Beira-Mar, se ele quisesse.

– Beira-Rio, Bete...

Naquele domingo mesmo, Bete estava com Márcio no Beira-Rio, pronta para torcer ao seu lado, e quase provocou uma síncope em Márcio quando tirou o casaco do abrigo.

– O que é isso?!

Estava com a camiseta do Grêmio, em marcante contraste com o vermelho que Márcio e todos à sua volta vestiam. Desculpou-se. Disse que pensara que se pudesse escolher uma camiseta que combinasse com a roupa e...

– Está bem, está bem – interrompeu o Márcio. – Agora veste o casaco outra vez.

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– Certo – disse Bete, obedecendo. E em seguida gritou "Inter!", depois virou-se para o Márcio e disse: – O nosso é o Inter, não é?

– É, é.

– Inter! Olha, eu acho que foi gol!

– O jogo ainda não começou. Os times estão entrando em campo.


♦ ♦ ♦


Bete agarrou-se ao braço de Márcio.

– Você vai me explicar tudo, não vai? Gol de longe também vale três pontos?

– Não. Vale dois. O que que eu estou dizendo? Vale um.

Mas Bete não estava mais ouvindo. Estava acompanhando um movimento no gramado com cara de incompreensão.

– Pensei que em futebol se levasse a bola com o pé.

– É com o pé.

– Mas aquele lá está levando embaixo do braço.

Márcio explicou que aquele era o juiz e estava levando a bola embaixo do braço para o centro do campo, onde iniciaria o jogo. Não, os outros dois não estavam ali para evitar que tirassem a bola das mãos do juiz, como no futebol americano. Eles eram os auxiliares do juiz. O que os auxiliares faziam?

– Bom, quando um dos auxiliares levanta a bandeira, o juiz dá impedimento.

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– E o que o auxiliar faz com o impedimento?

Márcio suspirou. Foi o primeiro dos 117 suspiros que daria até o namoro acabar duas semanas depois. Explicou:

– Os auxiliares sinalizam para o juiz que um jogador está em impedimento, isto é, está em posição irregular, impedido de jogar, e o juiz apita.

– Meu Deus!

Márcio olhou para Bete. O que fora?

– O juiz apita?! – perguntou Bete, com os olhos arregalados.

– É, o juiz sopra um apito. Aquilo que ele tem pendurado no pescoço é um apito.

– Ah.

Bete sentiu-se aliviada. Por alguns instantes, a idéia de um homem que apitava, sabia-se lá por que mecanismo insólito, quando lhe acenavam uma bandeira, parecia sintetizar toda a estranheza daquele ambiente em que se metera, por amor. Ele não apitava. Soprava um apito. Era diferente.

Mas Bete notou, pela cara do Márcio quando ela disse "Ah", que estava tudo acabado.

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O Mulherão


Mulherão. O Lineu já nem reagia mais quando chamavam a sua nova mulher assim. Às vezes até ajudava.

– Lineu, essa sua mulher é...

– Eu sei. Um mulherão.

– Não, eu ia só dizer que ela é muito...

– Pode dizer. Mulherão. É o que todos dizem.

E o mulherão... Desculpe, a nova mulher do Lineu, era realmente muito bonita. Grande e bonita. Tão grande e tão bonita que logo se instalou o debate: ela não seria grande e bonita demais para o Lineu? Não era uma questão de duvidar da capacidade do Lineu de, assim, administrar tudo aquilo. Nem se discutia o direito do Lineu, apesar do seu tipo franzino, de ter uma mulher daquelas dimensões. A questão, no fundo, era de justiça. A Valda – o nome dela era Valda, como as pastilhas, mas a semelhança terminava aí – era mulher demais para um homem só, fosse quem fosse o homem ou que físico tivesse. Monopolizando uma mulher como aquela o Lineu a estava, por assim dizer, sonegando. Alguma coisa – por justiça – tinha que sobrar para os

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outros. Aquilo era até uma metáfora perfeita para concentração de renda no País, não havia como não se revoltar. Onde estava a solidariedade?

Restava saber como a mulher do Lineu reagiria a uma proposta distributivista.

Fez-se uma rápida enquete no grupo, no fim da qual foi escolhido o Romualdo para testar a receptividade da Valda. Romualdo, o Mualdão, era simpático e bem falante, além de ser casado com a Titina, que já estava acostumada com a sua fama de conquistador, e até fazia pouco dele, dizendo "Esse galo é só de cocoricó", ao que o Mualdão respondia "Vou te mostrar o cocoricó em casa", e todos riam. Todos no grupo eram casados. O último a casar fora o Lineu.

E é preciso dizer que os homens do grupo respeitavam as mulheres do grupo.

Ou, como dizia o Mualdão: "Mulher de amigo, pra mim, é homem feio". Mas também é preciso dizer que nenhuma das mulheres do grupo era um mulherão como a Valda.

Sem as mulheres saberem, é claro, o Romualdo foi escalado para uma missão de reconhecinmento. Sua tarefa era descobrir, com jeito, se a Valda era, ao menos, cantável. Uma vez estabelecido isso, pensariam nos passos seguintes.

Era necessário avançar com cuidado. Ninguém queria magoar o Lineu, logo o Lineu. Mas quem mandara ele casar com um monumento?

O Mualdão pediu algumas semanas para estudar

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o terreno e fazer sua aproximação. Contou depois que agira cientificamente, cuidando para não espantar a presa nem alertar o Lineu, e que finalmente conseguira ter com a Valda o que chamou de uma conversa franca, os dois sozinhos num bar, cartas na mesa, corações abertos, pessoas adultas e modernas, sim ou não?

– E então? – quis saber o Mariano, quase babando.

Os outros apertaram o círculo em torno do Mualdão. Estavam reunidos como num conselho de guerra. E então? Mualdão sacudiu a cabeça. Nada feito. Valda lhe confessara que era uma mulher com um apetite sexual equivalente ao seu tamanho, e que já tivera alguma experiência na vida, mas nada comparável ao que encontrara com o Lineu. O Lineu a satisfazia plenamente. O Lineu era o homem da sua vida. O homem definitivo. Não podia nem pensar em outro. Nada pessoal, dissera a Valda. Simpatizava muito com todos. Mas tudo o que precisava, tinha com o Lineu.

O grupo se dispersou, arrasado.

Naquela noite, quando o Mualdão chegou em casa foi recebido pela Titina com o pé batendo no parquet, sempre um mau sinal. Tinha sido visto no bar com a Valda. O que tinha a dizer? E Mualdão foi obrigado a contar tudo. Sua missão de testar a Valda. E o que a Valda dissera sobre o Lineu. Resultado: sem os homens saberem, as mulheres do grupo iniciaram um assédio organizado ao Lineu para

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descobrirem o que, nele, satisfaz tanto a Valda, um mulherão como a Valda. O Lineu não sabe mais o que fazer com os olhares e as indiretas e os bilhetes que recebe. Na outra noite, num jantar com todo o grupo, sentiu até a mão da Titina por baixo da mesa, numa missão de reconhecimento.


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Pequeno Macaco


Não ficamos sabendo nem da metade do bem e do mal que fazemos aos outros. Aquele homem em que você esbarrou sem querer na rua pode ter se virado para xingar você, desistido, guardado sua raiva e mais tarde chutado o cachorro do vizinho, que reagiu, começando a briga, que acabou com dois mortos e três feridos, sobre a qual você leu no jornal sem nem sonhar que a culpa era sua. Aquele amigo a quem você telefonou para perguntar qual era a música antiga que falava em "edredom vermelho", porque só ele saberia, e três dias depois telefonou para dizer que tinha encontrado a música... Quem sabe e na hora em que você telefonou ele não estava prestes a pular pela janela, convencido de que não servia para mais nada na vida? Você pode ter-lhe dado uma razão temporária para continuar vivo e, depois de cumprida sua missão, ele pode muito bem ter conhecido uma moça, com a qual casará e viverá feliz até os dois morrerem num incêndio causado por você, sem saber, quando jogar um cigarro pela janela do carro justamente no mato em que eles estão acampados.

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A toda ação corresponde uma reação que provoca outras reações e você não pode ter absoluta certeza que um gesto seu, digamos, ao abrir bruscamente a porta da sua geladeira, não vá causar, depois de uma longa série de efeitos encadeados, uma avalanche no Himalaia. Qualquer biografia é, na verdade, o resultado do cruzamento de várias biografias que por sua vez são determinadas por várias outras biografias, e sempre que toma uma decisão sobre a sua vida – como, por exemplo, sua decisão de cortar o sorvete, que pode ser a fração percentual que faltava para a fábrica de sorvete decidir diminuir sua produção, desempregando várias pessoas, uma das quais, daqui a alguns meses, tomará a decisão de assaltar você – você está decidindo a vida de outros. Agora mesmo você pode ter jogado no lixo a casca de banana que cairá do caminhão do lixo e na qual o carteiro escorregará ao atravessar a rua trazendo uma carta da Cameron Diaz (digamos) para mim que desaparecerá pelo buraco do esgoto, me deixando sem saber o que a Cameron poderia querer comigo e a minha vida igual ao que era antes, além da coitadinha sem resposta e o carteiro no chão.

Num jantar dado em Bruxelas pelo conde Roche-Petard para o embaixador de Bezabeba, o conde contou ao embaixador que o apelido da sua pequena neta, Annette, era Petite Singe, pois ela não ficava quieta um minuto. O embaixador achou aquilo encantador e, de volta ao seu país, contou ao

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imperador de Bezabeba que a pequena neta do conde Roche-Petard era chamada em casa de Pequeno Macaco, e o imperador riu muito, engasgando-se na tâmara que estava comendo e morrendo em seguida por falta de ar, o que desencadeou uma luta fratricida pela sua sucessão que durou várias semanas sangrentas e terminou com uma intervenção da ONU, Bezabeba dividida e um saldo de vários milhares de mortos. Em Bruxelas, o conde leu no jornal que o embaixador fora preso como suspeito de ter assassinado o imperador e seria executado, mas não leu mais porque a pequena Annette entrou na sala com a babá e exigiu sua atenção, correndo de um lado para o outro sem a menor idéia da desestabilização que causara no Oriente e depois pulando no seu colo. Parecia mesmo um macaquinho.


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A Dança da Maçã


Antônio chegou na hora marcada. Ainda tinha a chave do apartamento, mas preferiu bater. Luiza abriu a porta. Os dois se cumprimentaram secamente.

– Oi.

– Oi.

Antônio fez um gesto indicando os dois homens que estavam com ele. Um senhor e um mais moço.

– Este é o seu Molina e este... Como é seu nome mesmo?

– Arlei disse o mais moço.

– Arlei. Eles vieram me ajudar com a mudança.

– Bom dia – disse Luiza – Já está tudo mais ou menos separado.

Algumas caixas de papelão e sacolas de plástico, uma lâmpada articulada de mesa de desenho, a mesa de desenho desmontada, uma taça de metal. Tudo junto perto da porta.

– Eu resolvi levar a poltrona – disse Antônio.

– Tudo bem – disse Luiza.

– É isso aí, pessoal – disse Antônio, abrindo os braços para mostrar o que seria levado. Isto, e aquela poltrona ali.

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Seu Molina estava examinando a taça.

– É para o casal – disse

A inscrição na taça era "Campeões do Declaton dos Casais, Hotel das Flores, 1992 - Antônio e Luiza". O Declaton dos Casais incluía corrida do saco, corrida de pedalinho nolago do hotel e a dança da maçã. Uma maçã era colocada entre os joelhos do casal e eles tinham de fazê-la chegar à boca sem usar as mãos

– Eu não quero a taça – disse Luiza.

– Eu também não – disse Antônio.

– 1992... disse o seu Molina. – Era a lua-de-mel?

Luiza e Antônio se entreolharam, mas só por um segundo.

– Mais ou menos – disse Antônio.

– Quem diria, não é? – disse o seu Molina.

– O quê?

– Em 1992. Que ia acabar assim.

Antônio não podia dizer para o seu Molina não se meter na vida deles.

Afinal, era um senhor. Pediu para o Arlei:

– Vamos começar?

Mas o Arlei estava mostrando um álbum que tirara de uma das sacolas de plástico.

– Álbum de fotografia. Vai também?

– Vai – disse Luiza. Tudo que está nas sacolas vai embora.

Arlei estava olhando o álbum. Mostrou para o seu Molina:

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– Olha os dois na praia.

E fez um aceno de cabeça para Luiza, com as pontas da boca puxadas para baixo, querendo dizer "Sim senhora, hein?", e que a Luiza de biquíni não era de se jogar fora. Mas o seu Molina estava sério, olhando para Luiza.

– Você não quer ficar com o álbum?

Luiza perdeu a paciência.

– Não quero ficar com nada disto, entende? O que está nas caixas e nos sacos, é para ir embora. São dele.

– Podemos começar? – pediu Antônio.

Arlei estava examinando os CDs dentro de outra sacola.

– A divisão dos CDs... – disse. – Foi de comum acordo ou...

– Eu fiquei só com os que já eram meus.

– Você não quer examinar?

A pergunta de Arlei era para Antônio.

– Não. Isso tudo já estava combinado – respondeu Antônio. E, pegando uma das sacolas do chão para dar o exemplo, pediu. Vamos começar a levar para o caminhão?

Mas Arlei continuava a examinar os CDs e seu Molina continuava com a taça nas mãos.

– E a taça? – perguntou o seu Molina.

– O senhor quer ficar com ela? Pode ficar.

– Foi vocês que ganharam – disse o seu Molina. E depois: – O que era o Declaton dos Casais?

– Tinha de tudo. Corrida de saco, corrida de

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pedalinhos, dança da maçã...

Seu Molina e Arlei, um uníssono:

– Dança da maçã?

– É. Colocaram uma maçã entre as pernas de cada casal, na altura dos joelhos, e ganhava quem conseguisse que a maçã chegasse na boca, para ser mordida, sem usar as mãos. Lembra, Lu?

Luiza então estava sorrindo com a lembrança.

– É. A gente tinha de se contorcer toda, para fazer a maçã andar.

Quem deixasse cair no chão, perdia.

– E vocês conseguiram morder a maçã?

Conseguimos. Não foi fácil, mas conseguimos.

– Lembra do casal cearense, Lu?

– Lembro! Ela foi ajudar com o joelho e acabou acertando o marido bem no...

Bem ali.

– E ele saiu pulando e gritando "Mulher, não maltrate o que é seu!"

Os dois deram risadas, depois Antônio ficou sério e disse:

– Bom, mas chega de lembranças. Vamos fazer essa mudança. Se o senhor quiser pode ficar com a taça, seu Molina.

– Eu não. Uma lembrança destas, de um tempo tão alegre... Nenhum de vocês quer ficar com ela, mesmo?

– Está bem, eu fico.

Antônio e Luiza tinham falado ao mesmo tempo. E se corrigiram ao mesmo tempo:

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– Fica você.

– Fica você.

Seu Molina perguntou:

– Vocês têm certeza que não querem pensar mais um pouquinho sobre isto?

– Sobre a taça?

– Sobre a separação. Só mais alguns dias. Depois nos chamem para fazer a mudança. Ou não nos chamem.

Arlei sacudiu a sacola com os CDs e acrescentou:

– Assim vocês têm mais tempo para pensar na divisão dos CDs. Na minha experiência, a divisão dos CDs é sempre o que dá mais problemas, depois.

Luiza e Antônio estavam se olhando.

– O que você acha? ― perguntou Luiza.

– Não sei... ― disse Antônio.

Seu Molina e Arlei saíram e fecharam a porta em silêncio e deixaram os dois conversando.

...

Naquela noite, depois do amor, Luiza perguntou a Antônio de onde tinha saído aqueles dois, Arlei e seu Molina, e Antônio respondeu que os escolhera ao acaso, na rua. Eles tinham um caminhão com uma placa do lado: "Mudanças, carreto, etc."

– Bendito et cetera – disse Luiza, puxando o Antônio de novo.

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A Rainha do Microondas


Sérgio convidou Cláudia para jantar e disse que ele mesmo faria a comida.

– O meu nhoque é famoso.

– Quero só ver – riu a Cláudia.

– Quarta-feira?

– Quarta-feira.


♦ ♦ ♦


Na quarta-feira, Sérgio abriu a porta para Cláudia de avental. Explicou que não, não acabara de decapitar uma galinha. O sangue no avental não era sangue, era o molho do nhoque. Pequeno acidente. Nada grave. Estava nervoso.

Instalou Cláudia na sala, perguntou se ela já queria começar no vinho ou se preferia um aperitivo, ela perguntou se tinha Campari, não tinha, ela disse que vinho estava ótimo, ele serviu o vinho, ela perguntou se podia ajudar em alguma coisa, ele disse que não e voltou para a cozinha. Quando sentaram-se para jantar, ela perguntou:

– Por que nervoso?

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– Você aqui, no meu apartamento? Comendo a minha comida?

Cláudia sorriu. Pensou em dizer "Eu é que devia estar nervosa, sozinha, aqui no seu apartamento", mas não disse. Pensou em dizer "Eu nunca esperava ser convidada", mas não disse. Pensou em dizer "Eu não podia sonhar que você estava a fim de mim", mas não disse. Deixou o sorriso dizer tudo.

– São de farinha.

– Hein?

– Os nhoques. Faço com farinha, acho que ficam mais leves. O engraçado é que nhoque de farinha é considerado mais fino, mas o nhoque de batata é mais caro. Como você está cansada de saber.

– Sérgio...

– Sim?

– Posso te fazer uma pergunta?

– Já sei o que você vai perguntar. O molho. Acertei? Esse gosto diferente do molho. É o meu segredo. Você não adivinha o que tem no meu molho. Ninguém adivinha.

– Não, Sérgio. Eu ia perguntar...

– Pergunte.

– Por que a gente não esquece os nhoques e...

Ela parou de falar quando viu a expressão no rosto dele. Surpresa e dor.

Como se alguém tivesse lhe dado a notícia de uma morte na família. Uma tia favorita, atropelada.

– Você não gostou.

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– O que?

– Do nhoque.

– Não, adorei. Adorei!

– Você não gostou do meu nhoque.

– Não é isso, Sérgio. Eu...

Ela não sabia como continuar a frase. "Eu ia sugerir que a gente esquecesse a mesa e fosse para a cama"? "Eu pensei que o nhoque fosse só um pretexto, ou uma mensagem cifrada, e ia pedir para pular as preliminares e ir logo para o que interessava"? "Eu entendi tudo errado"?

Ele começou a tirar o prato da sua frente. Ela segurou o prato.

– Sérgio, deixa. Eu amei o nhoque.

Ele, puxando o prato:

– Não precisa fingir.

Ela, puxando o prato com as duas mãos:

– É o melhor nhoque que eu já comi na minha vida, Sérgio. Juro.

Ele, puxando o prato com força:

– Eu vou servir outra coisa.

Ela:

– Não precisa!

Ele largou o prato e voltou para o seu lugar. Durante algum tempo nenhum dos dois falou. Ela hesitou, depois recomeçou a comer o nhoque. Pensou em pedir desculpa, mas concluiu que, também, não era o caso de se humilhar. Pensou em fazer "mmm" depois de cada garfada, mas achou que poderia ser acusada de ironia. Ele não estava comendo.

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Estava estendido na cadeira, desconsolado, olhando para a parede. Ela o magoara. Ela, decididamente, entendera tudo errado. Decidiu tentar uma reconciliação.

– Qual é o segredo do seu molho, afinal?

Ele sacudiu a cabeça, querendo dizer que não valia a pena.

Só depois da sobremesa ele falou de novo.

– O que você ia me perguntar?

– Não, queria saber porque eu deixei você nervoso.

– Porque eu sei que você cozinha muito bem. Não queria fazer feio.

– Eu, cozinhar bem? Eu nem sabia como se fazia nhoque.

– Mas me disseram que você...

– Disseram errado.

– Tinha até curso na França.

– Iih, já vi tudo. Grande confusão. É a outra Cláudia!

– A outra Cláudia?

– Eu não sei fazer nada. Sou a rainha do microondas.


♦ ♦ ♦


De madrugada, ela acordou e viu que ele a olhava. Os dois sorriram. Ele perguntou:

– Por que você ficou?

Ela pensou em dizer "Para restaurar o meu

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ego". Pensou em dizer "Porque você fez aquela cara quando eu disse para esquecer os nhoques, e eu nunca aguentei ver cachorro abandonado". Pensou em dizer "Porque sou uma estudiosa dos abismos humanos, e você promete". Mas disse:

– Porque mal posso esperar para provar seu café da manhã.


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Pijamas de Seda


O Délio era tão cafajeste, tão cafajeste que enternecia as pessoas.

Diziam "flor de cafajeste" como se dissessem "figuraça". E brincavam com ele, afetuosamente:

– Délio, é verdade que você venderia a própria mãe?

– O que é isso – dizia o Délio, com modéstia.

Volta e meia alguém aparecia com "a última do Délio", que era devidamente festejada. Às vezes, alguém se apiedava da vítima.

– E como é que vai ficar a viúva, depenada pelo Délio?

– Pois é, coitada. Ele levou até os pijamas.

Mas logo aparecia um defensor do Délio.

– Ela não pode dizer que não sabia que ele era um cafajeste.

– Alguém avisou?

– Estava na cara!

A teoria era a seguinte: quem se envolvia com o Délio, com aquela cara de cafajeste, estava pedindo. Não podia alegar falta de aviso. Tudo que alguém precisava saber sobre o Délio estava na sua cara. Só

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se enganava quem queria. Só era enganada quem ignorava o aviso da cara. Ou achava que a cara estava mentindo, que ninguém podia ser tão cafajeste assim.

Foi justamente uma viúva a responsável pela queda do Délio, que tanto consternou os amigos. Uma viúva, e a fatal atração do Délio por pijamas. Ele tinha uma coleção de pijamas, muitos herdados de maridos mortos, presenteados pelas viúvas. Tinha pijamas para dormir, pijamas para andar em casa, pijamas para passear na calçada. Pijamas de todos os tipos, e em profusão. Gabava-se de poder passar um trimestre sem repetir um pijama. E foi a obsessão por pijamas que abateu o Délio.

Um dia um grupo foi visitar o Bonato no seu leito de morte. O Délio e mais uns três ou quatro. Na saída do quarto do Bonato, estavam todos impressionados com a cena do Bonato nas últimas, mal podendo respirar, e sua mulher, a Léinha, segurando sua mão, e seu afilhado Davi, com sua cara de sonso, mal contendo o choro. O Délio comentou:

– Viram só?

– Pois é. Pobre do Bonato. Está nas últimas.

– Não, não – disse o Délio. O pijama dele. De seda pura! E outra coisa: com monograma. Seria facílimo transformar o "B" de "Bonato" em "D" de Délio. O Délio tinha uma cerzideira especialista em alterar monogramas.

Durante semanas depois da morte do Bonato,

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fizeram apostas no grupo. A Léinha, que afinal era uma mulher inteligente, e já conhecia o Délio, sucumbiria ao cafajeste? O namoro começou, discretamente, três meses depois do enterro. E três meses depois, ao ser perguntado, de longe, como ia o seu assédio à Léinha e aos pijamas de seda do falecido, Délio limitou-se a dar tapinhas alegres embaixo do próprio queixo. Querendo dizer que estavam no papo.

Na última vez em que o grupo viu Délio, antes da derrocada, ele estava levando os pijamas de seda do Bonato para sua cerzideira alterar os monogramas. Depois, Délio desapareceu. Segundo as primeiras versões, ele e Léinha estariam em lua-de-mel, em Cancún, onde ele exibia seus pijamas para um público internacional. Quando Léinha foi avistada sem o Délio, surgiram rumores de que o cafajeste já dera seu golpe, deixando Léinha desesperada e sem um tostão, amaldiçoando-se por achar que seria uma exceção na vida dele, que com ela ele se regeneraria. Regenerar-se, com aquela cara! Mas Léinha não parecia desesperada. E, quando perguntaram a ela sobre o Délio, disse só:

– Sei lá.

E como tinha sido Cancún?

– Que Cancún?

Finalmente, Délio apareceu. No começo, não quis falar. Disse apenas uma palavra: "deslealdade". Não entrou em detalhes. Estava deprimido. Só com o tempo e a insistência dos outros foi contando o que

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tinha acontecido. Desta vez, a vítima fora ele. Sim, acreditassem se quisessem. Ele, que todos chamavam de cafajeste, tinha encontrado alguém mais sem caráter do que ele.

E, ainda por cima, desleal.

– Quem, Délio?

– O Davi.

– O Davi?! O afilhado do Bonato? Com aquela cara de sonso?

Exatamente, disse Délio. Com aquela cara dissimulada. Pelo menos ele, Délio, não disfarçava sua cafajestice. Ao contrário do Davi, que escondia a sua sob uma márcara de sacristão e um jeito de bobo. Davi, o que mais chorava no enterro do padrinho, embora já fosse amante de Léinha. Davi, que chantageara Léinha, ameaçando deixá-la depois da morte do Bonato. Fora para segurar Davi que Léinha lhe dera os pijamas de seda do Bonato, com o "B" transformado, com tanta arte, em "D".

– Ela só queira a minha cerzideira! ― queixou-se Délio, arrasado.

Em condições iguais, Délio não fugiria de uma disputa com Davi por Léinha e seu dote, inclusive os pijamas de seda. Mas era preciso haver um mínimo de lealdade. Tudo às claras, na cara, e que vencesse o pior.

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Papos


– Me disseram...

– Disseram-me.

– Hein?

– O correto é "disseram-me". Não "me disseram".

– Eu falo como quero. E te digo mais... Ou é "digo-te"?

– O quê?

– Digo-te que você...

– O “te” e o “você” não combinam.

– Lhe digo?

– Também não. O que você ia me dizer?

– Que você está sendo grosseiro, pedante e chato. E que eu vou te partir a cara. Lhe partir a cara. Partir a sua cara. Como é que se diz?

– Partir-te a cara.

– Pois é. Parti-la hei de, se você não parar de me corrigir. Ou corrigir-me.

– É para o seu bem.

– Dispenso as suas correções. Vê se esquece-me. Falo como bem entender. Mais uma correção e eu...

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– O quê?

– O mato.

– Que mato?

– Mato-o. Mato-lhe. Mato você. Matar-lhe-ei-te. Ouviu bem?

– Eu só estava querendo...

– Pois esqueça-o e pára-te. Pronome no lugar certo é elitismo!

– Se você prefere falar errado...

– Falo como todo mundo fala. O importante é me entenderem. Ou entenderem-me?

– No caso... não sei.

– Ah, não sabe? Não o sabes? Sabes-lo não?

– Esquece.

– Não. Como “esquece”? Você prefere falar errado? E o certo é “esquece” ou “esqueça”? Ilumine-me. Me diga. Ensines-lo-me, vamos.

– Depende.

– Depende. Perfeito. Não o sabes. Ensinar-me-lo-ias se o soubesses, mas não sabes-o.

– Está bem, está bem. Desculpe. Fale como quiser.

– Agradeço-lhe a permissão para falar errado que mas dá. Mas não posso mais dizer-lo-te o que dizer-te-ia.

– Por quê?

– Porque, com todo este papo, esqueci-lo.

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Clic


Cidadão se descuidou e roubaram seu celular. Como era um executivo e não sabia mais viver sem celular, ficou furioso. Deu parte do roubo, depois teve uma idéia. Ligou para o número do telefone. Atendeu uma mulher.

– Aloa.

– Quem fala?

– Com quem quer falar?

– O dono desse telefone.

– Ele não pode atender.

– Quer chamá-lo, por favor?

– Ele está no banheiro. Eu posso anotar o recado?

– Bate na porta e chama esse vagabundo agora.

Clic. A mulher desligou. O cidadão controlou-se. Ligou de novo.

– Aloa.

– Escute. Desculpe o jeito que eu falei antes. Eu preciso falar com ele, viu? É urgente.

– Ele já vai sair do banheiro.

– Você é a...

– Uma amiga.

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– Como é seu nome?

– Quem quer saber?

O cidadão inventou um nome.

– Taborda. (Por que Taborda, meu Deus?) Sou primo dele.

– Primo do Amleto?

Amleto. O safado já tinha um nome.

– É. De Quaraí.

– Eu não sabia que o Amleto tinha um primo de Quaraí.

– Pois é.

– Carol.

– Hein?

– Meu nome. É Carol.

– Ah. Vocês são...

– Não, não. Nos conhecemos há pouco.

– Escute Carol. Eu trouxe uma encomenda para o Amleto. De Quaraí. Uma pessegada, mas não me lembro do endereço.

– Eu também não sei o endereço dele.

– Mas vocês...

– Nós estamos num motel. Este telefone é celular.

– Ah.

– Vem cá. Como você sabia o número do telefone dele? Ele recém-comprou.

– Ele disse que comprou?

– Por que?

O cidadão não se conteve.

– Porque ele não comprou, não. Ele roubou.

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Está entendendo? Roubou. De mim!

– Não acredito.

– Ah, não acredita? Então pergunta pra ele. Bate na porta do banheiro e pergunta.

– O Amleto não roubaria um telefone do próprio primo.

E Carol desligou de novo.

– O cidadão deixou passar um tempo, enquanto se recuperava. Depois ligou.

– Aloa.

– Carol, é o Tobias.

– Quem?

– O Taborda. Por favor, chame o Amleto.

– Ele continua no banheiro.

– Em que motel vocês estão?

– Por que?

– Carol, você parece ser uma boa moça. Eu sei que você gosta do Amleto...

– Recém nos conhecemos.

– Mas você simpatizou. Estou certo? Você não quer acreditar que ele seja um ladrão. Mas ele é, Carol. Enfrente a realidade. O Amleto pode ter muitas qualidades, sei lá. Há quanto tempo vocês saem juntos?

– Esta é a primeira vez.

– Vocês nunca tinham se visto antes?

– Já, já. Mas, assim, só conversa.

– E você nem sabe o endereço dele, Carol. Na verdade você não sabe nada sobre ele. Não sabia que ele é de Quaraí.

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– Pensei que fosse goiano.

– Ai está, Carol. Isso diz tudo. Um cara que se faz passar por goiano...

– Não, não. Eu é que pensei.

– Carol, ele ainda está no banheiro?

– Está.

– Então sai daí, Carol. Pegue as suas coisas e saia. Esse negocio pode acabar mal. Você pode ser envolvida. Saia daí enquanto é tempo, Carol!

– Mas...

– Eu sei. Você não precisa dizer. Eu sei. Você não quer acabar a amizade. Vocês se dão bem, ele é muito legal. Mas ele é um ladrão, Carol. Um bandido. Quem rouba celular é capaz de tudo. Sua vida corre perigo.

– Ele esta saindo do banheiro.

– Corra, Carol! Leve o telefone e corra! Daqui a pouco eu ligo para saber onde você está.

Clic.

Dez minutos depois, o cidadão liga de novo.

– Aloa.

– Carol, onde você está?

– O Amleto está aqui do meu lado e pediu para lhe dizer uma coisa.

– Carol, eu...

– Nós conversamos e ele quer pedir desculpas a você. Diz que vai devolver o telefone, que foi só brincadeira. Jurou que não vai fazer mais isso.

O cidadão engoliu a raiva. Depois de alguns segundos falou:

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– Como ele vai devolver o telefone?

– Domingo, no almoço da tia Eloá. Diz que encontra você lá.

– Carol, não...

Mas Carol já tinha desligado.

O cidadão precisou de mais cinco minutos para se recompor. Depois ligou outra vez.

– Aloa.

– Pelo ruído o cidadão deduziu que ela estava dentro de um carro em movimento.

– Carol, é o Torquatro.

– Quem?

– Não interessa! Escute aqui. Você está sendo cúmplice de um crime. Esse telefone que você tem na mão, está me entendendo? Esse telefone que agora tem suas impressões digitais. É meu! Esse salafrário roubou meu celular!

– Mas ele disse que vai devolver na...

– Não existe Tia Eloá nenhuma! Eu não sou primo dele. Nem conheço esse cafajeste. Ele está mentindo para você, Carol.

– Então você também mentiu!

– Carol...

Clic.

Cinco minutos depois, quando o cidadão se ergueu do chão, onde estivera mordendo o carpete, e ligou de novo, ouviu um "Alô" de homem.

– Amleto?

– Primo! Muito bem. Você conseguiu, viu? A Carol acaba de descer do carro.

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– Olha aqui, seu...

– Você já tinha liquidado com o nosso programa no motel, o maior clima e você estragou, e agora acabou com tudo. Ela está desiludida com todos os homens, para sempre. Mandou parar o carro e desceu. Em plena Cavalhada. Parabéns primo. Você venceu. Quer saber como ela era?

– Só quero meu telefone.

– Morena clara. Olhos verdes. Não resistiu ao meu celular. Se não fosse o celular, ela não teria topado o programa. E se não fosse o celular, nós ainda estaríamos no motel. Como é que chama isso mesmo? Ironia do destino?

– Quero meu celular de volta!

– Certo, certo. Seu celular. Você tem que fechar negócios, impressionar clientes, enganar trouxas. Só o que eu queria era a Carol...

– Ladrão.

– Executivo

– Devolve meu...

Clic.

Cinco minutos mais tarde. Cidadão liga de novo. Telefone toca várias vezes. Atende uma voz diferente.

– Ahn?

– Quem fala?

– É o Trola.

– Como você conseguiu esse telefone?

– Sei lá. Alguém jogou pela janela de um carro. Quase me acertou.

– Onde você está?

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– Como eu estou? Bem, bem. Catando meus papéis, sabe como é. Mas eu já fui de circo. É. Capitão Trovar. Andei até pelo Paraguai.

– Não quero saber de sua vida. Estou pagando uma recompensa por este telefone. Me diga onde você está que eu vou buscar.

– Bem. Fora a Dalvinha, tudo bem. Sabe como é mulher. Quando nos vê por baixo, aproveita. Ontem mesmo...

– Onde você está? Eu quero saber onde!

– Aqui mesmo, embaixo do viaduto. De noitinha. Ela chegou com o Índio e o Marvão, os três com a cara cheia, e...


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Uma paginação forçada, assim por dizer. A navegação entre as páginas se faz através das setas contidas ao pé de cada página. A lista à esquerda mostra os links que remetem às páginas iniciais das respectivas crônicas.

Até aqui, nada de mais. Exceto que isso tudo é feito sem JavaScript. É puro HTML/CSS.

Como isso é feito?

Na verdade, a navegação se processa dentro de um único HTML. Os links remetem a âncoras distribuídas ao longo do documento, cada uma com um nome, o que resulta na rolagem do documento para cima ou para baixo. Essa rolagem não é percebida, uma vez que a scrollbar foi desabilitada no CSS (overflow: hidden), causando a impressão de que realmente existe uma paginação.

O link para o Blog Playground, a lista e este texto não acompanham a rolagem do documento porque estão contidos em divs com position: fixed.

In terms, a fake pagination. The navigation between the pages is done through the arrows at the foot of each page. The list on the left shows the links to the initial pages of the corresponding articles.

So far, nothing new. Except for that this is all done without JavaScript. It is pure HTML/CSS.

How is it done?

In fact, all navigation takes place within a single HTML document. The links refer to anchors distributed throughout the document, each one with a name, so the document scrolls up and down, which isn't perceived while the scrollbars are disabled in CSS (overflow: hidden) – giving us the impression that a pagination is really working there.

Link to the Blog Playground, the list and this description does not follow the scrolling of the document because they are contained in divs with position: fixed.